Profissões e ofícios dos anos ontem

19-04-10

Profissões e ofícios dos anos ontem

Permalink 16:35:46, Categories: Número 13 - Abril 2010  

O FERREIRO

A profissão de ferreiro deverá ter começado cerca de 2000 anos a.C., quando o homem aprendeu a manipular e a trabalhar os metais, sendo da sua responsabilidade a produção de armas (espadas, lanças, dardos, flechas e escudos); ferramentas agrícolas (arados, foices, machados, enxadas, pás e picaretas); utensílios domésticos (facas, tesouras e navalhas); artefactos para animais (ferraduras, freios e estribos); e outros objectos como correntes e ferramentas de uso diverso.

O nome latino da profissão – faber ferrarius - traduz bem o que era o ferreiro entre os romanos, em que faber significa artífice que trabalho o ferro, o que representava um dos ofícios mais requisitados e rendosos em função da grande procura de produtos derivados deste metal na sociedade romana.

O ferreiro como artesão e fabricante de objectos metálicos, foi também um dos profissionais mais solicitados na Idade Média pela necessidade de equipar os exércitos com couraças, elmos e outros dispositivos de protecção dos soldados, ou de armas, como espadas, lanças e flechas em ferro temperado de grande resistência. Por tal facto, não havia exército que nas suas movimentações prescindisse de um ou mais ferreiros de confiança, dada a necessidade de garantir o bom funcionamento do equipamento militar e das ferraduras dos cavalos de combate e das bestas de carga.

Se em tempos de guerra o seu papel era um dos mais importantes, também em tempos de paz era um dos oficiais mais procurados, quer no campo, quer na cidade, por o seu trabalho se revelar de extrema importância em todas as actividades em geral, mas muito em especial nas ligadas á agricultura, tanto para o afiar das ferramentas, como para concertar ou fazer de novo forquilhas, enxadas, sacholas, machados, cunhas e tudo o demais necessário aos serviços da lavoura. Normalmente também ferrava cavalos, burros e espécies muares, produzindo ainda tesouras de tosquia de elevada qualidade e esmerada perfeição.

O ferreiro, pessoa muito respeitada e admirada no seio da comunidade, que criava as suas obras a partir do fogo e com o fogo, configura o artista que transformava a matéria bruta – o ferro – em autenticas obras de arte como facilmente ainda hoje encontramos em museus, palácios, igrejas, catedrais, etc., cujos o rendilhados e outras aplicações metálicas só podem ter sido produzidas por quem foi bafejado por bênção divina.

Com grande habilidade manual, força física e capacidade artística, o ferreiro moldava à pancada, na bigorna, com pesados martelos e marretas, o ferro saído da forja cor de fogo, dando-lhe assim a forma e o jeito conforme a peça a executar.

Era um trabalho sujo e duro, mas apesar disso, da fumaça e do fino pó do carvão que lhe inundava as narinas e enchia os pulmões, trabalhava de sol a sol e só não fazia serão porque a luz ténue da candeia não lhe permitia a perfeição da obra que aspirava fazer.

E se para tudo era preciso ciência, seria na forja, uma pequena construção de pedra onde a fornalha tinha um buraco ao fundo e se colocava o carvão ardido, que a qualidade do artista melhor se evidenciava, pois desde o carvão até ao arrefecimento da peça numa pia com água, para tempera, tudo era feito com rigor, qual minúcia de ourives no mais elaborado trabalho de filigrana.

Além do fole, este de couro nos lados e de madeira por baixo e por cima, accionado por meio de alavanca, na oficina do ferreiro não podia faltar a bigorna; o cavalete ou safra; o malho (martelo ou marreta) para bater o ferro; o calçador, a talhadeira e o ponteiro encabados em “bergueiros” de carvalho, rachados numa ponta e apertados por argolas ou arames, para calçar, cortar ou furar sobre a safra; os tufos, tacos de ferro para fazer o olhos das enxadas, das sacholas, dos machados, etc.; a sufrideira para dar as formas ao ferro; a craveira para fazer as cabeças dos cravos e dos pregos; a rosca para fazer as roscas dos parafusos; as tenazes de vários tamanhos e formas; o engenho de furar; e o rebolo para afiar a ferramenta, este constituído por uma pedra redonda, como uma pequena mó de moinho, apoiada ao centro num ferro com um dos lados em forma de manivela para ser accionado pelo pé.

Nas mitologias Grega e Romana, Hefaísto ou Hefesto e Vulcano, deuses do fogo, eram os protectores dos ferreiros e na Igreja Católica São Dustano da Cartulária o seu padroeiro.

A partir do século XVIII, com a revolução industrial, o espaço do ferreiro passou gradualmente a ser ocupado pela indústria metalúrgica e não obstante até há poucos anos ainda existirem alguns na nossa região, a quem cabia o fabrico de aros para as rodas e outros componentes metálicos das carroças, a produção e amanho de enxadas, picaretas, machados, guilhos, cunhas, ponteiros e escopros, hoje da profissão apenas restam algumas das ferramentas por ele usadas, já tomadas pela ferrugem, e o registo na memória dos mais antigos.

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